Entrevista Concedida a Arquivos Brasileiros de Cardiologia - Sociedade Brasileira de Cardiologia

 

                              Entrevista

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: É uma honra estar conduzindo esta segunda entrevista, e hoje aqui entre nós, o Professor Stans Murad Netto, capixaba, filho de libaneses, livre docente em Cardiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor titular e fundador do Curso de Pós-graduação em Cardiologia do Instituto de Pós-graduação Médica do Rio de Janeiro.

Professor Murad tem contribuído para a Cardiologia Brasileira e Mundial através do seu papel como professor e educador visionário e também como o primeiro a descrever o espasmo coronariano e um dos pioneiros no emprego na cine-angiocoronariografia no Brasil.

O Professor Murad tem contribuído no dia a dia para o desenvolvimento da cardiologia e, principalmente, com a sua mente arguta, buscado um entendimento da doença cardiovascular e principalmente os novos horizontes. Vem trabalhando atualmente em cooperação com um grupo argentino no desenvolvimento de células-tronco no Infarto Agudo do Miocárdio.

Professor Murad, a minha primeira pergunta diz respeito a sua infância e adolescência. Como foram os primeiros anos de sua vida, o que marcou? Já que o senhor é filho de libaneses, de uma família tradicional no Espírito Santo?

Dr Murad: Primeiramente, o meu agradecimento muito grande ao Professor Evandro Tinoco que é uma das figuras mais destacadas na Cardiologia no Rio de Janeiro e no Brasil. Figura extraordinária, de alto conhecimento profissional e que vários concursos ele tem feito e realizado, e todos os que eu pelo menos conheci, o Evandro passou em primeiro lugar. Um outro importante aspecto do Evandro que estamos precisando muito neste país é a tendência a união entre os cardiologistas. Essa sensibilidade de juntar para desenvolver. Eu trago isso dos Estados Unidos, em que todas as pessoas de destaque no mundo, os americanos levaram para a América. Então, eles ganham o profissional com 30 ou 40 anos já pronto, e que o país de origem perde como nós perdemos vários que ficaram na América.

Esse convite que o Evandro me fez me trouxe uma pequena preocupação. Ele quer eu eu fale sobre a minha vida, sobre a minha biografia. É difícil a gente falar da vida da gente e depois dá uma impressão assim que... biografia se faz depois de morto. É uma coisa que me preocupa. Mas, a convite do professor Evandro, a gente não pode negar.

Meus pais eram pobres. Meu pai veio do Líbano com vinte e poucos anos de idade e foi camelô no Espírito Santo durante muitos anos.

Nós morávamos em Itapina, que é uma cidade no interior do Espírito Santo, onde eu nasci, depois quando eu estava com sete anos de idade, eu tinha necessidade de prosseguir meus estudos e então fomos para Colatina, que é uma cidade um pouco maior e que tinha um ginásio onde eu pude fazer o meu curso ginasial na época. Depois eu fui para Vitória porque lá não tinha o terceiro grau, não tinha científico. Tive que ir para Vitória para continuar os meus estudos.

Foi uma infância como toda pessoa que sem condições econômicas assim das melhores, a gente pode compreender e todos podem também compreender por todas as dificuldades porque a gente passa.

Eu vim para Vitória, fiz os dois anos em Vitória do científico, e ele (meu pai) um dia me convidou para dar uma volta numa praça lá e perguntou o que eu queria fazer. Se eu queria continuar trabalhando no comércio com ele, ele tinha uma casa comercial ou fazer Medicina. Eu sempre falava em Medicina, eu disse: eu quero estudar.

Então, no terceiro ano eu vim para o Rio de Janeiro fazer o terceiro ano científico e o "cursinho pré-vestibular".

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Murad, o que marcou na sua infância e adolescência no convívio com seus pais e irmãos? Quais foram as mensagens que essa família de libaneses passou para você?

Dr Murad: A primeira e mais importante. Meu pai dizia: "Vende tudo, fica de cueca, mas seja honrado!". Só isso.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: quer dizer, era uma família bastante unida, não é Murad? Você teve quantos irmãos?

Dr. Murad: Muito unida! Nós éramos sete. Um foi assassinado aqui no Rio de Janeiro, ele era tenente-coronel da Polícia Militar e reagiu a um assalto e foi assassinado.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: E os outros?

Dr. Murad: Victor Murad é professor da Faculdade de Medicina, ele era professor das duas faculdades de Medicina em Vitória, Professor de Cardiologia. O Victor foi presidente da Sociedade de Cardiologia do Espírito Santo durante, creio que 15 ou 16 anos. E hoje ele aposentou-se pela Federal e continua na Faculdade de Medicina da Santa Casa (EMESCAM) como professor.

Tenho duas irmãs, uma professora e outra arquiteta, e dois irmãos engenheiros, um que foi o responsável pela estrutura extraordinária que a gente tem na sede do Instituto de Pós-graduação Médica do Rio de Janeiro na Barra da Tijuca.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: O que que fez esse jovem Stans Murad Netto pensar em ser médico? Isso é normalmente uma circunstância ou o exemplo de um médico que leva os indivíduos mais jovens a esse caminho.

O que fez você procurar a profissão de médico?

Dr. Murad: Numa cidade do interior, as pessoas importantes lá são o padre e o médico. E todo mundo respeita o padre e o médico. E naquela época muito mais do que agora. Uma vez eu me lembro que tive uma febre muito alta com uns calafrios e fiquei muito preocupado com medo de morrer. Meu pai chamou um médico e chegou um profissional todo de branco. De linho branco, uma figura que dava a impressão de um santo ter chegado. E eu comecei a melhorar logo na chegada dele. Parei de tremer (risos), e com os primeiros comprimidos eu já na tinha mais nada. Então, aquilo me impressionou. Impressionava a todos nós, a quem veio do interior, que como eu disse, só essas figuras se destacavam. E eu gostei de medicina, eu queria ser médico. Também acredito que a sensibilidade da gente ajuda a que você escolha a medicina como profissão.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Bem, meu amigo, você chegou ao Rio de Janeiro jovem, a cidade era a capital federal e ingressou na famosa Faculdade Nacional de Medicina. Eu ia fazer uma pergunta muito interessante, porque hoje o prédio da Faculdade Nacional de Medicina na Praia Vermelha não está mais presente entre nós. Mas, muitos colegas que viveram aquela época guardam emoções, imagens... Eu lhe perguntaria, quais são as imagens e sensações que você guarda desse seu período intenso de descoberta como aluno na Praia Vermelha?

Dr Murad: Isso foi um dos momentos marcantes na minha vida porque você pode imaginar uma pessoa vir do interior, chegar ao Rio de Janeiro sem conhecer nada, sozinha, fazer o cursinho. Estudei muito. Sempre estudei bastante, entende? Acho difícil que uma daquelas vagas não me pertencesse, eu estudei bastante, não havia condição. E uma das maiores emoções da minha vida foi depois daquele concurso, que foi um verdadeiro funil, sempre é. É muito difícil! É muita gente disputando uma vaga. E eu só fiz a prova para a Nacional de Medicina. Não tinha dinheiro para pagar uma escola particular.

E quando eu passei no concurso e entrei no primeiro ano, a emoção foi muito grande. Você vem lá do interior de uma cidade pequena, chega ao Rio de Janeiro e consegue entrar na Faculdade Nacional de Medicina, que na época era uma das maiores escolas, uma das mais importantes do Brasil inteiro.

Eu não ouvia falar em quase nenhuma outra Escola de Medicina, essa escola era a da Praia Vermelha, a famosa Escola Médica da Praia Vermelha. Foi uma emoção grande a minha entrada na escola.

E lá eu continuei estudando muito, ficava o tempo todo naquela anatomia. Pra você ter idéia, Evandro, sem querer me vangloriar nem querer enaltecer nada, o ano mais difícil da escola sempre foi o terceiro ano, que tinha Farmacologia, Clínica Médica, uma série de disciplinas mais difíceis, a minha menor nota foi nove. Eu tirei 10 nas duas provas de Parasitologia, com uma menção na prova de Parasitologia feita pelo Professor Fialho na época. Que aquela prova tinha sido feita por alguém em nível acima daquele período da vida escolar.

Isso sempre foi um prazer muito grande, depois o que marcava naquela época é que a Medicina era mais de Semiologia. A gente era exercitado a fazer o diagnóstico, nós não tínhamos, a não ser o eletrocardiógrafo e o aparelho de Raio X. Você não tinha eco, não tinha hemodinâmica, não tinha tomografia, não tinha ressonância, não tinha nada. Não tinha unidade coronária. Você tinha que exercitar os seus cinco sentidos no sentido de fazer o diagnóstico dos doentes. E tratá-los, com pouca ou nenhuma droga, que eu me lembre, quando me formei você tinha nitrito de amilo, diurético mercurial, os bloqueadores ganglionares com aquele desastre todo que a gente conhece, tinha a quinidina. Depois veio o peritrate, pentanitrato de tetraeritrol que marcou como se fosse uma solução para a angina do peito. Depois veio unidade coronária, começou a vir o resto da Medicina atual. Eu acho que a Medicina tem menos de cem anos. Antes acho que foi uma coisa que lembra espiritismo, não existia Medicina científica antes dos cem anos. Claro que havia vacinação e aquelas coisas, mas a grande Medicina, a Medicina Moderna tem cem anos pra mim.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: E quais foram os professores naquela ocasião, no convívio da Faculdade de Medicina na Praia Vermelha e também nos estágios em que os alunos rodavam como a Santa Casa de Misericórdia, Moncorvo Filho. Que professores impressionavam aquele jovem Murad ainda construindo a sua formação como médico?

Dr. Murad: Como eu disse a você, naquela época o que existia, era aquela Medicina Clínica, o cardiologista era um clínico. Não existia nada mais. Então, o maior destaque de toda a minha vida profissional foi o Professor Magalhães Gomes. Um homem muito inteligente, culto, além de uma cultura médica impressionante, era muito estudioso e tinha uma cultura geral, que era uma coisa presente entre os médicos naquela época. Eles tinham cultura geral, eles tinham noções de várias coisas fora da parte médica. O segundo professor que foi importante na minha vida foi o Professor Feijó, esses foram os dois maiores cardiologistas clínicos.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: E o que levou você a fazer Cardiologia, foi a contribuição desses homens na sua formação, ou isso já passava nesse jovem Murad , "um gostar" do sistema cardiovascular?

Dr Murad: É que minha época na passagem pela Semiologia, eu fiquei na enfermaria do Professor Magalhães Gomes, na Santa Casa de Misericórdia. E era um dos maiores cardiologistas brasileiros na época. Era um homem conhecido em todo o Brasil e, no Rio de Janeiro, o profissional de maior destaque na medicina na época era o Magalhães Gomes, sem dúvida alguma. Muito inteligente, brilhante nas exposições, as aulas magníficas e eu fiz Semiologia na Enfermaria dele. Aquela Semiologia Cardiovascular bonita, bem feita, a ausculta cardíaca, o eletrocardiograma na beira do leito, aquilo me fez seguir a Cardiologia.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Você terminou a Faculdade de Medicina e concluiu o curso na Praia Vermelha em que ano?

Dr Murad: Eu concluí o Curso Médico em 1954, eu tinha 23 anos.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Naquela época o templo da cardiologia era o Instituto Nacional de Cardiologia do México. Era a grande escola de cardiologia, e você como outros colegas aqui no Brasil foram ao Instituto de Cardiologia do México terminar sua formação em cardiologia. Como foi a sua chegada ao México, esse ícone da Cardiologia dos anos 50 e 60?

Dr. Murad: Naquela época como eu disse, a Cardiologia era Clínica. Então os métodos de diagnóstico mais importantes eram a eletrocardiografia, a radiologia e estava começando o cateterismo cardíaco. E o México tinha o maior centro de cardiologia do mundo. Pelo menos era um dos maiores. E eles distribuíam 12 residências para todo mundo, seis eram para o México e seis para o resto do mundo. E naquele ano, eu fui privilegiado, fui o único brasileiro que foi para lá como residente, porque outros foram como voluntários. Mas por lá passaram Fulvio Pilegi, passou Tranquesi, Radi Macruz, passou Barbatto, passou o ex-diretor do Albet Einstein, José Ferrer, foi o Dirson Carstro de Abreu, foi o Paulo Ginefra, depois foi o Feldman. Então, pelo nome desses cardiologistas você vê que o Instituto Nacional de Cardiologia do México formou gente muito boa no Brasil inteiro. E tinha gente de todo mundo, tinha espanhol, tinha francês, tinha sueco, americano. Tinha gente do mundo inteiro naquele Instituto que foram lá, principalmente, pelo brilho e pelo conhecimento do Enrique Cabrera e do Soddy Pallares em eletrocardiografia, que era a melhor eletrocardiografia do mundo inteiro. Tinha a Maria Victoria de la Cruz em Embriologia, onde eu passei dois anos vendo todas as peças de Cardiopatia Congênita. Vi febre reumática como não existe em parte alguma do mundo, crianças com febre reumática. Havia uma enfermaria só com crianças. Então foi um período maravilhoso, e sobretudo um período tranqüilo em que as pessoas te prestigiavam. Ninguém disputava posição, isso é que foi sempre uma coisa lamentável aqui entre nós, que a gente tem que mudar essa mentalidade, é muito difícil aqui.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: No México, havia alguns colegas que foram para lá justamente com uma forte visão do esquerdismo e que trabalhavam no Instituto de Cardiologia no México, e passavam talvez esse tipo de mentalidade de uma igualdade e de uma grande aproximação com os alunos. E o Dr. Chaves era o grande maestro na realidade, eu gostaria que você falasse um pouco sobre esses indivíduos. Os doutores Ponce de Leon, Ignácio Chaves, o convívio com Cabrera e Pallares, como era o traço desses indivíduos?

Dr. Murad: Olha, eles tratavam a gente muito bem. O Cabrera era uma figura extraordinária, inteligentíssimo. Ele fez trabalhos incríveis, aquela sobrecarga sistólica e diastólica. E eram duas pessoas, o Pallares de um lado e o Cabrera do outro, com dois pontos de vista divergentes em relação a genes da eletrocardiografia, mas eles conseguiam conviver porque tinha um homem respeitabilíssimo que era o Ignácio Chaves. Ninguém levantava a voz, ninguém discutia, todos respeitavam esse homem. Ele mantinha uma unidade incrível naquele instituto, com gente de um valor muito grande e que conseguiam conviver e desenvolver todo o potencial deles sem que um interferisse no outro, pelo contrário, todos se ajudavam.

Então você tinha o Ponce de Leon, que como você disse que, na Hemodinâmica eles fizeram trabalhos maravilhosos, a angio-cardiografia seletiva surgiu no México, com o trabalho do Ignácio Chaves. Trabalhos com Maria Victoria de la Cruz, trabalhos com Villareal em Nefrologia, com Spinovella em Cardiopatias Congênitas. Na época, o que era fraco no Instituto de Cardiologia era a Cirurgia Cardíaca.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Nesse momento, nos anos 60 e 70, a Cardiologia do México deixa de ser o grande ponto de referência e a Cardiologia Americana, fruto do auto-desenvolvimento tecnológico, passa a ocupar um lugar de destaque, e depois dessa sua passagem no México, você passa a ser convidado para atuar no St. Joseph Hospital em Siracuse, Nova Yorque, e eu gostaria que você me passasse esse momento em que você encontra o Dr. Gensini e como foi esse choque entre a formação da Cardiologia do México e a visão da Cardiologia Americana naquele momento se pontificando como grande Centro de Cardiologia Mundial.

Dr Murad: Bastante diferente, Evandro, no México, a gente via aquela Medicina mais de Clínica Cardiológica, uma cardiologia clínica. E a hemodinâmica, apesar de ser bem desenvolvida, a gente não tinha Cirurgia. Não tinha a cirurgia com o peso que existia na época nos Estados Unidos, então eu senti essa necessidade, inclusive da angiocardiografia. Quando eu vi o Professor Gensini fazer uma conferência no Instituto de Cardiologia do México sobre coronariografia e foi ele quem divulgou a técnica do Mason sones, de Coronariografia Seletiva, tanto que a primeira apresentação no livro do Braunwald foi feita pelo Gensini, foi ele quem divulgou a técnica do Mason Sones no mundo. Quando conversei com ele, ele me convidou pra ir pra lá. Fui pra lá depois do Instituto de Cardiologia do México, que você sabe que o residente lá recebia de zero a quatro. Zero era mal, um regular, dois bom, três muito bom, quatro excelente. Eu tive 3, nos primeiros dois meses e depois foram 4 em todo o curso. Então, com isso eles pediram ao Gensini, eu fui pra lá e fui muito bem recebido nos EUA pelo professor Gofredo Gensini, e lá o forte dele era a angiocardiografia e a coronariografia. Lá, eu tive a oportunidade de fazer o exame de um paciente com angina do peito, e a técnica que se usava naquela época era a técnica da acetilcolina. Se injetava um pouco de acetilcolina, o coração parava durante alguns segundos, e então você injetava o contraste na raiz da aorta. E um paciente teve uma dor muito forte no peito com corrente de injúria, eu pensei que tivesse embolizado a artéria coronária dele. Fiquei muito preocupado. O Gensini veio à sala também preocupado porque a responsabilidade nos Estados Unidos é muito grande. Lá, a gente paga pelo que faz. Então, o que acontece, estava saindo Isordil naquela época. Ele pediu para botar Isordil sublingual, e o doente melhorou. Desapareceu a corrente de injúria e o doente melhorou.

Qual não foi a minha surpresa que o Gensini mandou repetir a angio. Eu muito preocupado, mas ele mandou e eu repeti. Então nós ali documentamos pela primeira vez no mundo inteiro a presença de espasmo de artéria coronária e com isso a American College of Angiology nos premiou com Certificate of Honor dessas duas instituições. E mais, aliás, foi você quem me trouxe, quando Gensini morreu, o Richard Conti que era então o Presidente do American College of Cardiology fez um artigo sobre a vida do Gensini e colocou nesses sete artigos mais importantes da vida dele, em dois a gente estava presente. Um deles era justamente "The Arteriographic Demonstration of Coronary Artery Spasm and its Release after the Use a Vasodilator".

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Nesse momento, nos Estados Unidos, onde a hemodinâmica e, principalmente, a coronariografia passa a ser divulgada e difundida onde Gensini se torna um marco em relação a esse procedimento invasivo. Surgem, então, oportunidades de Murad se estabelecer na América. E, obviamente, o espírito latino da volta ao país provavelmente era forte naquele momento. Como foi esse momento de decisão naquele momento, de ficar na América ou retornar ao Brasil?

Dr. Murad: Eu passei o melhor período da minha vida nos Estados Unidos, o período científico foi na América. Porque eu também comecei a fazer retroperfusão coronária, depois que a gente via na coronariografia aquelas obstruções coronárias, havia o desejo de fazer alguma coisa pelo paciente. O que existia naquela época era a cirurgia, implante de mamaria. Não havia ainda ponte de safena. Então, o que aconteceu? Eu comecei a fazer retroperfusão coronária. Então, eu ocluí a artéria descendente anterior no cão e injetava cardiogrim, ora cardiogrim ora substancia de contraste e via que tanto o cardiogreen quanto a substância de contraste se dirigiam para a área da coronária obstruída. Então, a gente pensava, nós temos que retroperfundir por via retrograda, porque a gente atingia a microcirculação e o tecido miocárdico com muita facilidade. Então, eu cheguei até a injetar água oxigenada. O sangue ficava todo vermelho no seio coronariano, e eu disse: "Eu resolvi o problema". Só que os corações fibrilavam, e eu não entendi o porquê da fibrilação. Hoje a gente sabe que são os radicais livres, o oxigênio liberado ali provocava a fibrilação ventricular, a corrente de injúria, a fibrilação.

Mas, depois que eu voltei ao Brasil, eu cheguei a fazer injeção de contraste em humanos e apresentei num congresso internacional que foi feito pelo Eduardo Souza em São Paulo, numa mesa redonda com Carvalho Azevedo, o Shirey que foi um dos dois que escreveram a técnica de coronariografia seletiva com o Mason Sones. Então, depois de ter tido essa experiência, nós resolvemos fazer célula-tronco em seio coronariano injetando e os pacientes que foram feitos, a técnica é muito simples, você coloca um cateter no seio coronário, injeta com balão ocluído exatamente como eu fiz nos cães nos Estados Unidos.

E, depois de um tempo de oclusão com o balão a célula-tronco é injetada nós fizemos isso no serviço do professor Roberto Vinhas na Argentina, porque foi o local onde encontramos mais facilidade. Uma pessoa maravilhosa, um homem extraordinário, sério, digno, correto. Recebeu a gente e deu toda a estrutura para a gente fazer e aceitou que o nome do trabalho fosse o nosso. Então você vê a grandeza da pessoa, a quem eu rendo aqui a minha homenagem e a minha gratidão pela recepção que ele teve a nossa equipe na Argentina.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Você então teve uma sólida formação também na Cardiologia Experimental. Não era comum um Cardiologista Clínico ter uma formação em Cardiologia Experimental. Era algo mais aceito nos Cirurgiões. Quem te introduziu nesse mundo da Cardiologia Experimental?

Dr. Murad: Foi nos Estados Unidos, o Gensini me deixou na sala de hemodinâmica para realizar procedimentos experimentais. Depois ela era esterilizada, mas na sala de hemodinâmica com campos estéreis, nós fazíamos as coisas e eu sempre tive um pouco de habilidade com coisa de cirurgia, sempre gostei disso. Eu não fiz cirurgia porque não tive oportunidade. Mas, isolar a artéria conorária, para você ter idéia, eu isolava a descendente anterior com a maior facilidade, nenhum cão morreu comigo.

Quando o cirurgião lá da equipe de Cirurgia Cardíaca lá do hospital pediu para isolar a artéria coronária, o cão morreu, daí em diante ele deixou que eu fizesse todas as experimentais, e daí foram feitas por mim. Tinha o anestesista como suporte, quando eu voltei ao Brasil, eu continuei fazendo, tanto que a técnica que oclusão de cavas.Eu fiz a primeira coronariografia no Brasil, fomos nós que fizemos.

A primeira coronariografia do Brasil está documentada nos dois congressos brasileiros de cardiografia, e no artigo que publicamos no Instituto de Cardiologia do México, "Coronariografia por Oclusión de ambas venas cavas", foi em 1963, publicada do Instituto de Cardiologia do México, na revista. Então, depois o Dr. Eduardo Souza que é uma figura espetacular, extraordinária da hemodinâmica brasileira, a quem eu também rendo as minhas homenagens, ele fez também a cinecoronariografia porque ele também recebeu o equipamento de cine na frente da gente. E conseguiu fazer grandes trabalhos em stents como todos nós conhecemos.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Como foi essa decisão de voltar? O que levou a retornar ao Brasil já que você vivia um grande momento em termos de satisfação pessoal, provavelmente, conforto econômico também, oportunidade de crescimento e um convite que você recebeu para permanecer na América. Como foi esse momento e o que trouxe você de volta ao Brasil?

Dr. Murad: Foi o maior momento da minha vida profissional porque esse mesmo cirurgião que perdeu o cão na cirurgia, o americano é um povo diferente de nós, quando ele vê uma pessoa que pode fazer alguma coisa eles dão todas as condições pra nós, tudo o que você precisar você tem. Eu vi na Cleveland Clinic, eu fui convidado pelo Efler na época, era o chefe da Cirurgia cardíaca da Cleveland Clinic quando foi feita a primeira ponte de safena, a primeira mamaria, então o Efler me convidou pra lá. Eu vi quando ele, chefe da cirurgia chamou o Floyd Loup, um dos discípulos dele. Eu fui convidado para entrar na sala , assisti a uma cirurgia, e ele teve dificuldade de botar uma ponte e mandou chamar o Floyd Loup, isso não existe aqui no Brasil...

Isso é uma diferença grande e que fez com que aquele país se desenvolvesse. Então ele traz o indivíduo já preparado, pronto, desde que o indivíduo tenha valor. Eu fui convidado para chefiar um serviço de Cardiologia em Miami ou Nova Iorque e voltei. Chefe de serviço. Isso aí não existe. Depois eles sentaram comigo no almoço, eu estava almoçando sozinho e pronto para voltar porque eu tinha muitos problemas aqui no Brasil, meu irmão tentou suicídio aqui porque estava sem condições de sobreviver. Então eu tive que voltar, mas eles sentaram para almoçar comigo e disseram: "Murad, por que você não fica nos Estados Unidos?"

Eu disse: "Eu não posso, eu tenho família". "Você traz sua família!" – "Minha família é grande". Eles responderam: "Traz aos poucos".

Insistiram para eu ficar. Quando eu voltei ao Brasil, dois meses depois eu recebi a carta do Gensini oferecendo a chefia de um serviço em Miami ou Nova Iorque e eu voltei. Aqui chegando, a primeira coisa que me falaram na Secretaria de Saúde é que eu tinha passado quatro anos descansando e portanto eu tinha que servir ao Estado trabalhando num ambulatório de Clínica Médica para atender verminose no hospital Getúlio Vargas. Essa é a diferença que existe entre a América e, infelizmente, nós não alcançamos ainda esse nível. Aqui eu encontrei muita disputa, muita dificuldade!

Mas, nós conseguimos fazer uma Escola de Cardiologia onde os melhores foram convidados, os melhores professores. E até ainda pouco estava falando com meu funcionário enquanto eu vinha para cá no automóvel, eu dizia: "Você vê, eu tinha um serviço de hemodinâmica no Rio de Janeiro. Naquela época, era o único a fazer coronariografia, e depois outros passaram a fazer também coronariografia e então quando surgiram vários serviços de hemodinâmica. Os professores do nosso curso tinham liberdade, eu nunca pedi a nenhum deles que me encaminhassem um paciente para fazer cateterismo. Nunca! Eles tiveram plena liberdade de indicar os pacientes para quem eles desejassem.

Eu acho que eu tentei, pelo menos até agora estou tentando dar condições aos professores de se desenvolverem com liberdade plena, sem nenhuma obstrução, sem nenhuma dificuldade toda a capacidade deles na sala de aula.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: O seu retorno ao Brasil, fruto de uma decisão pessoal, e o senhor encontra o nascimento de um Instituto. O Instituto Estadual de Cardiologia Aloyzio de Castro. O que significou na sua formação e vida profissional o Instituto de Cardiologia? Quais foram os fatos marcantes numa casa que o senhor alcançou o cargo de diretor daquela instituição?

Dr. Murad: Quando cheguei ao Rio de Janeiro, como eu te disse, eu fui destinado a trabalhar em um ambulatório no Getúlio Vargas. E eu tentei sair de lá, quando eu soube da existência do Instituto de Cardiologia que era uma casa no centro da cidade, perto de onde tinha o Instituto Médico Legal, era ali onde funcionava o Instituto de Cardiologia. E lá eu encontrei um serviço de angiocardiografia daquele antigo, onde as angios eram feitas por radiografias.

Dava no máximo 4 por segundo. Achei aquilo, bem, para quem saiu dos Estados Unidos com cine, fazendo exames com intensificador de imagem, que você podia trabalhar à luz do dia. Chego aqui no Brasil e tive que trabalhar com fluoroscopia pra fazer cateterismo. Fiz muitos transceptais, isso ninguém fazia aqui na época. Fiz muita angiocardiografia, muita congênita. Porque como eu disse, eu passei dois anos vendo cardiopatia congênita com Maria Victoria de la Cruz e com Spino Vella. Fiz muita congênita em muita criança naquela época. Hoje existem por aí os serviços de cardiopediatria com pessoas extraordinárias, mas naquela época não havia isso, tinha que fazer.

Aí, eu consegui trabalhar no Instituto de Cardiologia que funcionava numa casa perto de uma praça. E o diretor era o Eugênio do Carmo e ele tinha muito prestígio com o dono do jornal Correio da Manhã, que tinha muita força na época.

Quando os radialistas tiveram que ceder aquele hospital, não conseguiram manter o Hospital no Humaitá, onde hoje funciona o Instituto de Cardiologia foi uma disputa muito grande por aquele prédio.

Então, o Eugênio com a força dele, conseguiu que o dono do Correio da Manhã liberasse aquele prédio para o Instituto de Cardiologia. Para você ter idéia, a gente começou a fazer a mudança nos próprios automóveis da gente.

Eu me lembro que eu trouxe muita coisa lá do Instituto para poder ocupar o hospital enquanto estava se discutindo a quem ceder o prédio, nós fomos ocupando o prédio trazendo as coisas da casa para o prédio que onde hoje funciona o Instituto Estadual de Cardiologia, onde eu fui diretor duas vezes.

Então, a gente praticamente, praticamente não, nós começamos a funcionar no Instituto de Cardiologia que hoje existe na Rua David Campista.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Mestres da Cardiologia como Zerbini tiveram presença no Instituto que era realmente um pólo da Cardiologia no Rio de janeiro, pelo menos no início da Cardiologia moderna com hemodinâmica e cirurgia. Como era o Instituto nesse momento nos anos 60?

Dr Murad: É preciso que se diga que lá começou a Cirurgia Cardíaca no Rio de Janeiro, os primeiros implantes de mamaria e pontes de safena foram indicadas por nós, só nós fazíamos a coronariografia. Então, o Instituto de Cardiologia passou a funcionar como o Centro de Cardiologia mais importante do Rio de Janeiro.

Eu vi o Professor Zerbini vir ao Rio para ver como o Professor Domingos funcionava aqui na Cirurgia Cardíaca. Então, o Domingos Junqueira foi quem realmente deu início a Cirurgia Cardíaca no Brasil, no meu modo de ver. Porque eu vi o Professor Zerbini vir até aqui pra ver como ele fazia as primeiras cirurgias. Então, aquilo ali funcionou como um pólo, infelizmente mudou a administração, a Secretaria de Saúde, e eles, é incrível, não dá nem para explicar isso, eles destruíram o serviço de Cirurgia Cardíaca do Hospital.

A gente que tinha ambulatório de coronária, ambulatório de hipertensão, tudo funcionando bem, aquilo foi destruído, essa é a palavra, foi destruído. E eu assumo isso que estou dizendo porque foi muito desagradável, entende? Por ingerência política.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: No final dos anos 70 se observava uma desaceleração do Instituto de Cardiologia e também da Cardiologia do Rio de Janeiro, nós vivemos praticamente uma década, a década de 80 na busca de uma reconstrução e você vivificou muito bem isso, Murad.

Dr. Murad: Eu queria dizer, que naquela época haviam grandes serviços de Cardiologia Clínica, do Professor Artur Carvalho Azevedo, do Professor Nelson Botelho Reis, tinha o Armando Ney Toledo em Eletrocardiografia, no Hospital da Lagoa, então havia outros grandes serviços de Cardiologia, mas onde se começou a fazer a Cardiologia completa, hemodinâmica, e Cirurgia Cardíaca foi no Instituto Estadual de Cardiologia Aloysio de Castro.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Falando de uma coisa boa, que foram as conquistas da Cardiologia que você presenciou. Quando você relata que a Medicina se desenvolveu nos últimos cem anos, e ela passou a ser cientifica; os grandes saltos da Cardiologia aconteceram nos últimos cinqüenta anos. E com certeza eu gostaria que você dissesse para nós, na sua visão quais foram os dez marcos da Cardiologia que você presenciou que modificou e tem modificado a vida dos nossos pacientes.

Dr. Murad: Primeira coisa, como eu disse quando eu me formei não tinha unidade coronária, o número de drogas que a gente dispunha em 1954 era praticamente uma meia dúzia delas, que funcionava mesmo. Eu não sei como a gente conseguia fazer Medicina naquela época, a própria penicilina tinha pouco tempo de existência. A penicilina surgiu quando eu estava começando o curso médico, então você disse bem. Há 400 anos, o Galeno dizia que o sangue era formado no fígado e recebia espíritos naturais e se distribuía no organismo. Então de 100 anos pra cá, veio a eletrocardiografia, veio radiologia praticamente, depois nós assistimos a vinda da unidade coronária, da Cirurgia Cardíaca, da circulação extracorpórea, do desfibrilador, das paradas cardíacas que já podiam ser revertidas, depois a angioplastia, que aliás eu tive a oportunidade de assistir as primeiras aulas do Andréa Gruentzig, lá na Suíça. Um homem extraordinário, que eu convidei para vir ao Rio de Janeiro, ele esteve lá na minha casa.

Pediu para tomar banho, eu dei a ele a toalha e o sabonete, ele entrou no banheiro e daí ele voltou. Ele voltou e disse assim: "Dr Murad, o senhor poderia me dar uma toalha e um sabonete?" – Ele era muito distraído, eu pensei que tivesse dado a ele uma toalha suja, mas eu tinha dado a ele uma toalha limpa. Procurei outra toalha e dei a ele e ele tomou banho. Ele queria ir ao Pão de Açúcar, eu o levei até o Pão de Açúcar e estava com uma secretária minha que falava muito bem o inglês, porque eu já estava imaginando que ele queria que eu subisse ao Pão de Açúcar e eu não gosto de altura.

Quando cheguei na base da Urca eu disse: "Gruentzig, você vai com essa menina que ela fala inglês e é uma moça bonita, como você está vendo, ela vai te acompanhar. E ele disse: "Eu só vou se você for". E eu disse: "Mas, eu não vou, eu tenho medo desse negócio pendurado aí".

E ele: "Mas, então eu não vou". Então, eu tive que ir. Aí, chegou um momento e ele parou, numas grades e parou naquela altura tremenda, começou a envergar o corpo assim e descer, eu disse: "Ele vai cair lá em baixo!". Segurei no cinto dele e disse: "Gruentzig! Esses ferros são fabricados aqui no Brasil, nem sei se esses parafusos são bons". Ele achou estranho aquilo... E eu disse: "Tome cuidado, não faça mais isso!"

Mas eu depois soube, lamentavelmente, que ele tinha falecido numa queda de avião que ele mesmo pilotava. Eu até acho que ele deve ter esquecido alguma coisa, ou não botou gasolina ou o avião não estava certo, porque ele era muito distraído, ele vivia parado, pensando, ele era uma grande figura que a Medicina perdeu.

Também, a correção das cardiopatias congênitas, a gente assistiu ao começo disso tudo com o Kirklin, Lilehey, o próprio Colley no Texas, e aqui no Brasil, desenvolveu bastante isso entre outros, José Pedro da Silva, na Beneficência Portuguesa.

Assisti também as próteses valvares, eu fui o primeiro, no Rio de Janeiro certamente, a indicar aquelas próteses de plástico que se usava naquela época, o doente morreu, por embolia. Aquilo ali, acho que não tem nenhum doente vivo hoje em dia. Foi o começo, depois vieram as próteses de bola e as coisas foram evoluindo. Mas, naquele início foram esses os marcos de Cirurgia Cardíaca, unidade coronária, coronariografia, angioplastia com stent, correção das cardiopatias congênitas, circulação extracorpórea, prótese valvar, as próteses vasculares. A gente assistiu a praticamente tudo, tomografia, ressonância, agora o TC muilti-slice, tudo isso a gente vem assistindo. E há uma previsão para o mundo de uma Medicina sensacional e revolucionária.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: É sempre uma coisa controversa, mas extremamente importante essa questão de escalar uma seleção. Uma seleção de cardiologistas. Eu gostaria que você colocasse pra gente e pode fazer como o Pelé. Não precisa ser onze, mas quais foram os cardiologistas que na sua opinião ajudaram a revolucionar a cardiologia e deixaram marcas na História da Cardiologia?

Dr. Murad: Magalhães Gomes, Euriclides de Jesus Zerbini, que praticamente deu grandeza à Medicina de Cardiologia brasileira. Desenvolveu a extraordinariamente a Cardiologia em São Paulo. Ele me contou a história do Incor, e algumas mágoas que ele sentia, em relação a algumas coisas que se passaram, Lilehey, com o coração artificial, Favalaro com a ponte de safena, Gruentzig, Gensini, Mason Sones, Sigmetuzo Arie, Eduardo Souza, Antonio Alves Couto, Carvalho Azevedo, Luiz Decourt, Nelson Botelho Reis, e todos os professores de nossa escola.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Eu ia fazer agora uma pergunta pessoal, além de flamenguista, e nesta cidade você vibrou mais uma vez com a nova conquista do Flamengo, eu sei que você tem uma filha e tem netos, fale para nós um pouco dessa continuidade e dessa geração de novos Murads.

Dr. Murad: Minha filha é muito inteligente, ela é psicóloga, é mestre em psicologia e, agora, advogada. Eu tenho dois netos maravilhosos que estão fazendo Odontologia e que eu espero que possam dar seguimento ao que nós estamos fazendo hoje.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Como você identifica o futuro da Cardiologia e da Medicina, você que sempre olhou o futuro como algo positivo e obviamente trazendo novas tecnologias. Qual é a sua visão de otimismo em relação ao futuro da Cardiologia, e que hoje te preocupa no mundo dos homens?

Dr. Murad: Essa é uma boa pergunta. A Cardiologia, como toda medicina vai sofrer uma verdadeira revolução nos próximos 20 a 40 anos. E essa nova previsão, é uma previsão do American College of Cardiology, no artigo extraordinário que foi publicado eu creio no final do ano passado ou retrasado.

A medicina vai mudar completamente, e todos esses hospitais vão ter que estar preparados para uma Medicina diferente. Nós vamos chegar a um momento em que verdadeiros computadores do tamanho de uma célula vão circular no organismo e trazer informações, fazer diagnósticos atuais e futuros, depois seguir com medicações que vão atuar nos locais onde o indivíduo precisa da medicação. Vai ser a medicina baseada em genética e na biologia molecular. E são dois os caminhos, de informática que hoje a gente tem que contar e a genética. Então vão desaparecer como eles estão prevendo, os cardiologistas e urologistas, agora vai ser geneticista do aparelho circulatório, geneticista do aparelho urinário, do aparelho neurológico etc.

Então, nós vamos ter uma Medicina avançada no sentido de você tratar da própria doença e não dos sintomas da doença. Nós vamos tratar da doença na origem dela, na parte genética, nós vamos atuar com o gene, com o DNA, com substâncias bioquímicas que vão atuar exatamente onde o indivíduo precisa, onde está o erro genético.

Nós vamos formar novos órgãos, haverá um período em que ocorrerão vários transplantes cardíacos e de outros órgãos, transplantes de coração de porco. E que não vão ter rejeição, porque eles já vêm preparados para não sofrer rejeição. Nós vamos ter pacientes vivendo 150 anos sentindo-se melhor que aos 70 anos, hoje já se identifica a telomerase e a anti-glicolisação como meios de poder prolongar a vida. Nós vamos chegar a essa fase, você vai ao médico pensando que vai ser recebido por um profissional que vai lhe examinar e quem lhe recebe é um técnico que lhe recebe e colhe um a gota de seu sangue, uma gota de saliva, uma gota de urina, pede para você esperar alguns minutos, depois minutos, ele volta e diz: "Olha, você vai ter uma doença X daqui a tantos anos, mas neste momento você tem este tipo de problema e precisa tratá-lo".

E mais ainda, você vai poder atender via Internet ou outro tipo de comunicação lá de dentro da sua casa ou consultório, um doente em qualquer parte do mundo, então você vai ter sua central, e no mundo inteiro haverá várias centrais e na América parece que já estão começando. Tem essa central onde as pessoas terão a historia clínica do doente, e todos os exames centralizados nessa central que pode receber via Internet, todas as informações que você pode dar agora, seu raio X, seu eletrocardiograma e você vai ser consultado à distância, ser medicado à distância, ser tratado à distância e inclusive sendo operado à distância.

Já começaram a fazer cirurgias pela Internet, operaram a primeira na França, operaram nos Estados Unidos, um robô operou um doente e retirou a vesícula, tratando cardiopatias congênitas e valvares, todas elas já com o robô, então eu vislumbro a Medicina no futuro tremenda, onde deve existir a participação do mundo inteiro nisso com um único objetivo: o ser humano.

E aí, o que me preocupa nesse contexto, é a falta de diálogo, cada um tentar ajudar ao outro, sem a preocupação de saber o indivíduo vai ser melhor do que você ou pior. O importante é você contribuir de uma maneira ou de outra com as pessoas sem se preocupar em crescer ou destruir quem quer que seja.

Deus me livre, eu acho isso uma coisa terrível, isso tem que mudar e infelizmente só vai mudar essas coisas, quando houver uma coisa tão violenta que morrer muita gente, e que surgir um líder, uma pessoa que possa salvar o homem, porque senão a gente vai virar igual a uma lua. Igual a Marte, não haverá nada aqui. Nem rios, nem florestas, nem pássaros, nem o ser humano.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Bem, nós estamos chegando ao final desta entrevista e eu ia pedir ao Professor Murad para que citasse quais foram suas principais contribuições científicas para a cardiologia mundial e brasileira?

Dr Murad: Primeiro, Evandro, eu não tenho a pretensão de querer dizer que contribuí de alguma forma, eu tentei fazer o que eu achava que podia dar certo em beneficio da própria Medicina. Então, eu chamo a atenção para espasmo de artéria coronária, o trabalho sobre microshunts, que nunca foi desenvolvido. Nunca conseguimos mostrar, bom já existiam em cães nesse trabalho, mas ninguém fez em homem como a gente fez e demostramos que existe no homem o shunts de artéria coronária para o ventrículo esquerdo, normalmente eles existem, são comunicações em torno de 30 a 60 micra e a coronariografia só vislumbra vasos com 200 micras pra cima, então esses vasos pequenos de 30 a 60 micras "shuntam" para dentro das cavidades cardíacas 51% do sangue (no cão), e ninguém vê isso. Se dobrar o diâmetro deles, a fuga para cavidade cardíaca vai ser importante, funciona como a quarta potência do raio, essa é a lei de Poiseulle. E mesmo assim a gente não via pela coronariografia. Isso não foi estudado. Uma vez, conversei com o Professor Dean Mason dos EUA quando ele esteve aqui convidado por nós, e pedi a ele que se pudesse ser feito um estudo com curva de diluição a gente vai conseguir verificar a magnitude desse shunt, nãoconhecemos isso, não existe nenhum trabalho publicado sobre isso. Nós fizemos os primeiros e publicamos inclusive com o professor Carvalho Azevedo, e então foi isso, Espasmo de Artéria Coronária, essa retroperfusão Coronária, que eu acho que vai abrir um campo enorme das doenças cardíacas, tanto com célula-tronco quanto com qualquer droga que você injete por aí por via retrograda, que você vai atingir facilmente o tecido cardíaco sem a resistência das arteriolas coronárias, a gente vai direto a circulação, capilar miocárdico. A oclusão de veias cavas com a primeira coronariografia feita aqui, daí o desenvolvimento de cirurgia cardíaca, depois das primeiras indicações de cirurgia cardíaca, e as que eu me lembro assim, nós fizemos muitas coisas, mas o que julgo de importância, tem um trabalho que está nos arquivos, até já falei com você sobre esse artigo, que eu acho que eu sempre chamei a atenção em aula, você deve lembrar, duas coisas, que eu achava que a placa mole é que desencadeava as crises de instabilidade coronariana, eu venho falando nisso há anos e anos e a outra coisa que chamamos a atenção são as infecções de boca e o risco que existe com o sexo oral, desse mau hálito que o pessoal começa chamar a atenção dizendo que isso é de estômago, o mau hálito, o hálito pútrido é de infecção de boca. A gente vem falando isso há muito tempo, e que tem que tomar cuidado com o sexo oral porque o pessoal fica pensando que o mau hálito é do estômago.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: A SBC agradece a sua contribuição para os Arquivos On-line e que com certeza trouxe uma panorâmica de toda a sua vida profissional, sua biografia como cardiologista, educador, pesquisador e também um homem de visão. Um homem que introduziu no nosso meio programas de educação a distância como os vídeos de Cardiologia ainda na década de 80.

Seguramente, já um pioneirismo que contribuiu e tem contribuído no desenvolvimento do cardiologista num país de tamanha dimensão como o Brasil.

Prof. Murad, vida longa para que o senhor continue trabalhando como diariamente trabalha, pensando na Cardiologia e principalmente compartilhando o seu conhecimento. Obrigado!

Prof Murad: Obrigado à SBC!

FONTE: Arquivos Online

Fotos

Instituto de Pós-Graduação Médica do Rio de Janeiro